A BYD conseguiu alcançar o que dezenas de construtores de veículos elétricos tentaram sem sucesso: crescer a um ritmo vertiginoso e oferecer automóveis a preços extremamente competitivos que a concorrência europeia e americana tem enorme dificuldade em acompanhar.
No entanto, por trás da rápida expansão mundial da marca chinesa — que chegou a superar a Tesla em vendas globais de elétricos —, existe um modelo industrial único e uma polémica que está a dar que falar no setor automóvel.
1. Integração Vertical: O segredo para reduzir custos
Enquanto a maioria das marcas tradicionais depende de uma vasta rede de fornecedores externos para componentes críticos, a BYD adota um modelo de produção quase 100% interno.
- Produção própria: A empresa fabrica no seu ecossistema as baterias (as famosas Blade), motores elétricos, chips e componentes eletrónicos.
- Margem e escala: Ao eliminar intermediários e controlar a cadeia de suprimentos de ponta a ponta, a BYD reduz drasticamente os seus custos de produção. Isto permite colocar modelos no mercado por valores que sufocam os seus rivais diretos.
2. A guerra de preços e os “usados com zero quilómetros”
Apesar do sucesso de vendas, a feroz concorrência interna na China desencadeou uma guerra brutal de preços entre fabricantes. Com o aumento substancial da produção, surgiu uma pressão imensa para escoar o stock, o que levou à exposição de uma prática controversa na China:
O fenómeno dos pátios de veículos parados
Começaram a surgir vídeos e imagens de enormes pátios com milhares de carros elétricos novos parados na China. Uma das explicações para este fenómeno envolve os chamados “usados de zero quilómetros”:
- O veículo sai da fábrica e é matriculado/registado.
- Esse registo contabiliza o carro nas estatísticas oficiais de vendas.
- O veículo é de seguida colocado no mercado de segunda mão como “usado”, mesmo praticamente sem ter rodado, permitindo a sua venda a preços ainda mais reduzidos para movimentar os stocks.
Esta prática gerou uma vaga de debate e levou mesmo as autoridades chinesas a acompanhar com atenção a dinâmica do mercado.
3. Estratégia de mercado ou risco para o consumidor?
Especialistas do setor debatem se o modelo de negócio passa por aceitar margens de lucro mínimas numa fase inicial para esmagar a concorrência, dominar quota de mercado e, posteriormente, ajustar os preços.
Apesar de não existirem provas de que a BYD aplique esta tática com intuito anticompetitivo — nem de que os veículos nos pátios correspondam a stock sem escoamento direto —, a realidade é inequívoca: a fabricante provou ter capacidade para produzir barato, vender milhões de unidades e desafiar os maiores grupos automóveis do mundo.
A questão que fica no ar para o futuro é: se esta guerra de preços eliminar parte da concorrência no mercado global, os carros elétricos continuarão a ser tão acessíveis?